31 de agosto de 2005

A Razão da Aparência

Afinal de contas, o «homem do piano» era falso. Uma fraude. Um vergonhoso embuste.
O rapaz confessou ser alemão (e não checo, como se pensava), não saber tocar piano (embora os médicos que o assistiram digam que faz lembrar a Maria João Pires), não está amnésico (serviu-se da sua experiência com doentes mentais para fazer a sua figura de urso) e não caiu acidentalmente ao mar (atirou-se a ele conscientemente porque estava deprimido com a vida homossexual que levava).
Neste momento o jovem está a caminho da sua terra natal na antiga Alemanha Oriental à espera que haja lá alguém para orientá-lo.
Num lampejo raro de solidariedade e ajuda humanitária, a Razão fez hoje deslocar para lá uma tribo de somalis que irá dar ao confuso rapazinho um novo sentido para a sua vida. E um novo sentar também, porque este só irá poder sentar-se de novo a um piano com a ajuda de uma câmara de ar meio cheia.
Esta história, e o aproveitamento que os media fizeram dela, fizeram-me pensar em quantos «homens do piano» não andarão por aí, por esse Portugal fora, alimentados pela javardice bacoca dos jornalistas.
Em Portugal o que não falta são «homens instrumento». Não se limitam apenas ao piano – temos «homens viola» como o Carlos Cruz, «homens violoncelo» como o Bibi, «homens baixo» como o Marques Mendes, «homens contrabaixo» como o Santana, «homens violino» com o Carrilho, «homens sem tuba» como o Sócrates, «homens trombone de varas» como o Soares…
Este país é uma verdadeira orquestra! Sem maestro nem partitura…

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