29 de novembro de 2007

A Razão dos Lambe-Cus

best of 07

A humanidade divide-se em dois géneros, para além dos meninos e das meninas: há os lambe-cus, e há aqueles cujas papilas gustativas não toleram o confronto sensorial directo com o streptococus vulgaris. A divisão não é equitativa. Os lambe-cus são, nitidamente, a maioria vigente.
Está veladamente convencionado nesta sociedade que «lamber um cu diariamente, garante um futuro polivalente». É uma forma de investimento a prazo.
Quem lambe um cu está convencido que, embora o sabor não seja nada por aí além, a coisa vale o esforço que daí advém. O cu lambido é normalmente grato, e o acto de lambecuzice raramente fica em cu alheio.
É importante referir que, para quem lambe cus, é perfeitamente indiferente o cu que está a lamber. É uma questão de fé que roça os critérios dos apostadores de cavalos: só se lambe um cu porque se tem fé que esse cu vale a pena lamber, porque vai dar algo a ganhar.
Lamber cus é um acto de fé completamente enviezado. Daí que seja extremamente fácil desatar a lamber outro cu qualquer, por dá cá aquela palha.
Para o lambe-cus, paradoxalmente, o importante não é lamber um cu em particular. É a aleatoriedade da coisa que dá riqueza ao acto e que aumenta a possibilidade de, um dia, deixar de lamber cus para ter o seu próprio cu lambido. Daí que se lambam cus de muitos quadrantes e de variadas influências. O cu é uma lotaria. Nunca se sabe ao certo qual é o que dá prémio. Portanto o lema é lamber indiscriminadamente.
É por essas e por outras que existe aquele ditado: «Quem tem cu tem medo». E se não tem, devia ter.

Publicado originalmente em 20.12.2007

28 de novembro de 2007

A Razão de Não Irmos Lá

ir la

«Assim não vamos lá» é uma daquelas nossas expressões que não tem correspondência em nenhuma outra língua. É um exclusivo nacional, quer na forma como no conteúdo. Todos nós sabemos que «assim não vamos lá». E se o «assim» é fácil de explicar e entender, porque basicamente se estende a tudo o que possamos fazer enquanto portugueses, já o «ir lá» se reveste de um sentido inexplicável que, na minha opinião, contribui para que de facto nunca lá cheguemos.
Sabemos que o país está a correr mal e que, se as coisas continuarem «assim, não vamos lá». A situação não é nova e assim não temos ido lá há alguns séculos. Convém no entanto perceber esta obsessão portuguesa em «ir lá». Porque raio havemos de ir lá? E onde fica isso? Ninguém sabe. E o problema reside exactamente nisso: andamos meio perdidos há séculos porque assim não vamos lá, mas não fazemos a mínima ideia onde é que lá fica. Sabemos apenas que não é assim que lá chegamos.
A verdadeira questão que devemos colocar não é saber onde é que é lá. Esse lugar estranho onde teimamos em nunca chegar por uma razão ou outra. A questão fundamental consiste em saber por que diabo havemos de ir lá e não podemos ficar exactamente aqui. Talvez porque estejamos fartos de aqui estar. Eu estou. Por isso mesmo é que este blog assim não vai lá.

Mesmo não indo lá, a «Razão» cumpriu hoje, precariamente, o seu terceiro aniversário. Durante a próxima semana vai cumprir-se a tradição de publicar o best of de 2007. Depois logo veremos se o blog vai lá ou não.

20 de junho de 2007

A Razão dos Testes em Animais

testes em animais
Fazem-me confusão aquelas marcas de cosmética que testam os seus produtos em animais.
Acho um bocadinho retorcido e desviante testar-se baton fucsia em vacas charolesas, esfoliante em borregos neozelandeses e creme de noite em salmões de dorso dourado.

Alguém devia dar umas noções de marketing a esta gente e explicar-lhes, por exemplo, que um morcego fêmea africano nunca usará Channel nº5, por muito que lhe apeteça sair à noite.

19 de junho de 2007

A Razão de Ir a Despacho


Como bem sabemos, o Estado tomou conta deste país há tempo demais. E como tal o país ficou com tiques de Estado: trabalha-se pouco, protesta-se muito, sai-se cedo e, la piéce de resistance, vai-se a despacho. Tudo vai a despacho neste país. Ir a despacho é uma condição de se ser português, heróis do mar, e raio que parta os canhões, marchar marchar sempre em frente, tipo flautista de Hamelin em direcção a um penhasco qualquer.
A verdade é que isto é o país do despacho, até porque o despacho (ou ir a despacho – expressão deveras deliciosa) é a maneira mais segura de nada acontecer. E, de facto, nada acontece.
O acto de ir a despacho é encerrado em si mesmo: quando algo vai a despacho podemos ter a certeza que se iniciou um processo de pasteurização ao contrário – em vez de retirar os micróbios indesejáveis, ir a despacho é acrescentar mais germes, mais micróbios e mais formas de vida esquisitas que têm todas uma coisa em comum: recebem sempre o subsídio de desemprego ao fim de mês. Mesmo que sejam mal empregados para trabalhar.
E o país, ou aquilo que chamam a este lugar, vai a despacho. Mas tudo de um modo pouco despachado, como convém.
É uma pena que não se despache todo o Governo mais a função pública que se arrasta, penosamente, como uma tripa excedente agarrada às paredes rectais do Estado. Isto nem uma tribo somali despacha.

17 de junho de 2007

A Razão do Insulto

insulto
Poucas coisas são gratificantemente libertadoras como um bom insulto aplicado no momento certo. Tem o efeito de uma ventania forte num dia nublado: deixa-nos o céu azul e solarengo. Limpa-nos a alma.
Não falo do insulto fácil, que não requer grande esforço dada a sua aplicação despersonalizada a qualquer pessoa ou situação. O insulto fácil é uma coisinha processada que sabe à mesma coisa em qualquer parte do mundo: um McDonalds da retórica. Agora um insulto personalizado e meticulosa ou inspiradamente aplicado é uma forma visceral de arte. Perpetuável no tempo, sem outra aplicação que não seja a original, que o viu nascer. Deixo aqui alguns exemplos:

A população é eminentemente portuguesa, quer dizer que ela é lenta, pobre, indolente, apática e preguiçosa.
Mark Twain, sobre os Açores.


O homem é tão inseguro de si mesmo que usa o cabelo como um idiota filho da puta, de modo a que as pessoas o possam reconhecer.
Rich Giachetti, sobre Don King.


Malditos sejam os danados porcos de ossos gelatinosos, os viscosos, os invertebrados inchados e insinuantes, os miseráveis sodomitas fétidos, os ardentes pederastas, os chorões, babando-se, perturbando-se, paralíticos, o bando fraco que fez a Inglaterra de hoje. Eles têm clara de ovos nas veias e a sua langonha é tão aguada que é um milagre que se possam reproduzir. Porquê, porquê, porque nasci eu em Inglaterra?
D.H. Lawrence, sobre o seu país natal.


Bambi com testosterona.
Owen Gleiberman, sobre Prince.


O encanto do homem é letal. Durante um momento está a nadar ao nosso lado e zás! Há sangue na água. A nossa cabeça foi-se.
John Barry, sobre Rupert Murdoch


Os americanos são uma raça de convictos e devem estar agradecidos por tudo aquilo que os deixamos fazer sem os enforcar.
Samuel Johnson

12 de junho de 2007

A Razão da Opinião Política

opinião política
Um leitor chamou-me conscenciosamente à atenção de não ter piadinha nenhuma nas minhas opiniões políticas. Esta observação fez-me pensar nas minhas opiniões e no que elas têm de político, ou seja: em nada. A verdade é que me recuso a pensar politicamente sobre o que quer que seja. Até porque acho, sinceramente, que pensar politicamente sobre o que quer que seja é a mesma coisa que sujar qualquer linha de raciocínio. E eu gosto das coisas limpinhas. Não é que seja um maníaco da limpeza: não tenho qualquer fobia que me impila (palavra interessante numa perspectiva puramente feminina) a dizer aquilo que acho de uma forma cor de rosa, alaranjada, vermelha ou azulo-amarelada. Aliás acho que, se existem cores, o melhor é que as usemos com a pluralidade que elas merecem: nunca irei negar que um dia destes vi o ministro dos negócios estrangeiros a usar uma sunga vermelha numa praia menor do litoral alentejano.
O que realmente me preocupa é o facto dos portugueses insistirem em compartimentar as opiniões alheias em gavetas inexplicáveis. Para mim as coisas não são monocromáticas. Nem bicromáticas. Para mim quem faz greve, para atrasar «conscenciosamente» a economia do seu país, é um perfeito retardado. E quem maquilha as opiniões bacocas da sua central sindical também é um retardado. E não me venham cá com merdas paternalistas acerca da minha parca formação intelectual, porque por mais parca que ela seja, e por mais «divertidissimo» que seja este blog, um grevista será para mim sempre um labrego, independemente da cor da minha (e já agora, da sua) opinião política.


Nota: E sem saber ler nem escrever este blog ultrapassou (pela esquerda e com os pisca-piscas da praxe) as duzentas mil visitas. Se pensarmos que cada visitante tem, em média, 1,60m de altura (descontando os anões, os cavalos e as mulheres desnudas) isto equivale a uma fila pilinha de 320.000 km. O mesmo que ir de Lisboa a Pequim 32 vezes. Nada que impressione um funcionário público num guichet de uma qualquer repartição deste país.

6 de junho de 2007

A Razão dos Rapa Nui

rapa nui

A CGTP fez hoje um balanço positivo da greve geral de quarta-feira, considerando que “teve um forte impacto na redução da actividade económica e nos serviços públicos” e dizendo que contou com a participação de mais de 1,4 milhões de trabalhadores.

Público Online, 6.06.07

Sempre que leio estas coisas concluo que vivo num pardieiro que promove a bestialidade diletante sem qualquer objectivo que não seja destruir qualquer possibilidade de «isto» vir a ser um país.
Uma entidade que se orgulha de promover uma «forte redução da actividade económica» só pode estar a gozar com cada um dos 10 milhões de cidadãos nacionais que insistem continuar a viver em Portugal.

Portugal e os seus sindicatos fazem-me lembrar os Rapa Nui, uma tribo polinésia que habitava a Ilha da Páscoa. Depois de anos e anos a desgraçarem a sua própria ilha, exterminando todos os seus recursos naturais para construirem um sem número de estátuas ridículas que não serviam para nada (uma espécie de Otas lá do sítio), os Rapa Nui acabaram por se extinguir a si próprios numa luta estupidificante pelo poder sobre um território que não interessava nem ao menino Jesus. Hoje em dia os Rapa Nui são lembrados como uma tribo de imbecis suicidas risíveis. Um belo exemplo para a nossa nação.