28 de fevereiro de 2006

A Razão Canina

canina
Adoro o meu cão. Adoro todos os meus cães. Todos os cães que já tive, adoro-os a todos. E ao longo da minha vida, acreditem, já tive um monte de cães. A gente acaba sempre por arranjar um novo cão, não é? É verdade. Ao longo da vida arranjamos sempre um cão atrás do outro. É o segredo da vida. A vida é uma sucessão de cães.
Às vezes conseguimos arranjar um cão que se parece exactamente com o cão que tínhamos. É verdade. Se dermos uma volta pelas lojas de animais conseguimos arranjar um idêntico ao cão anterior. Entramos com o cão morto pela loja de animais adentro, atiramo-lo para cima do balcão, e dizemos «Arranje-me um igual a este». E, espectáculo, eles trazem-nos um que parece a fotocópia do sacana do cão morto. E isto é extremamente prático, porque assim não temos de andar a trocar as fotografias que temos espalhadas lá por casa.
É isto que os cães têm de bom. Nunca vivem muito tempo, e nós podemos sempre arranjar outro.


George Carlin

27 de fevereiro de 2006

A Razão das Manias

manias
A malta tem uma propensão inata para desenvolver manias, pequenas rotinas que se criam, não se sabe a que ponto da nossa existência, e que depois fazem parte do nosso dia a dia, tornando-se tão banais e tão normais para nós que não damos por elas. São por assim dizer, os nossos bugs. Mas o facto de não darmos por elas não significa que os outros não reparem nas nossas manias. Uma das minhas entretenhas é observar as manias alheias. Diverte-me olhar para os bugs dos outros e saber que afinal até sou um gajo normal. Tremendamente normal.
O meu vizinho do 3º esquerdo, por exemplo, tem a mania de ouvir música em altos berros, que acompanha a cantar (miseravelmente, aliás) depois de mandar uma queca na vizinha do 2º direito (que tem a mania de gritar «É só fumaça! É só fumaça! O povo é sereno!» sempre que atinge o orgasmo).
Já o dono da pastelaria ao lado tem a mania de dispôr todas a latas de refrigerante e de cerveja de cabeça para baixo, sendo incapaz de estar um segundo sossegado, agitando-se pela pastelaria num frenesim alucinado, de pano na mão, sempre a limpar/esfregar qualquer coisa de uma maneira vigorosa, como se tudo estivesse permanentamente sujo. Uma dia perguntei-lhe porque diabo estavam as latas todas viradas do avesso. «Por causa do pó.» respondeu-me, «Você gostava de meter a boca numa lata cheia cheia de pó?».
O homem da livraria, desde que se começou a falar da gripe das aves, tem a mania de usar luvas de cirurgia e aquela pequena máscara branca anti-contágio. Não se percebe nada do que ele diz, mas o homem insiste em ter aquele ar de que no minuto segundo vai entrar na mesa de operações.
Por isso, quando me pediram para falar das minhas manias, achei que eram perfeitamente desinteressantes, quando vistas à luz do que anda por aí. A minha normalidade até chateia. Ainda assim, não vou deixar este rapaz pendurado.
Sempre que vou ao hipermercado tenho a sensação de que os gajos me estão a analisar os padrões de compra com câmaras atrás das prateleiras dos produtos, e costumo gritar frequentemente «Podem saír! Já vos topei!!» para a segunda linha de embalagens na prateleira (é lá que eles têm as câmaras!).
Quando participo em conversas que me interessam, costumo fixar a orelha esquerda de quem está a falar e acenar a cabeça afirmativamente, repetindo de tempos a tempos «Marco Bellini é que sabe. O segredo está na massa.» Quando a conversa não me interessa, olho para o lado e canto, mais ou menos gritando, «The hills are alive!» numa alusão desinteressada à «Música no Coração».
Sempre que bebo vodka tenho a mania de a gargarejar inicialmente ao som de Piaf (gosto particularmente da entoação que dou à «La Vie en Rose») e só depois é que a bebo. Já me mostraram muitas vezes a porta da rua à conta disto, mas é mais forte que eu.
Sempre que me apresentam alguém tenho uma imensa vontade de lhe beijar as bochechas e de perguntar se alguma vez considerariam o botox. Normalmente contenho-me e não faço nada, mas custa-me imenso. Quando me apresentam mulheres de decotes generosos tenho a tendência de falar à vez para cada uma das mamas, virando a cabeça para a direita ou para a esquerda, dependendo da mama para que estou a falar.
Como vêem, as minhas manias não são nada de relevante, e passam perfeitamente despercebidas. Sou aterradoramente normal. Uma seca.

26 de fevereiro de 2006

25 de fevereiro de 2006

A Razão da Imortalidade

imortalidade
Não pretendo obter a imortalidade através do meu trabalho. Pretendo alcançá-la não morrendo.

Woody Allen

24 de fevereiro de 2006

A Razão do Reality Show

reality shows
Há uns tempos atrás o Zé Maria, aquela alma simples do Big Brother, tentou suicidar-se, depois de ter estoirado o dinheiro que ganhou no concurso em projectos falhados.
Marco, o neanderthal do pontapé maravilha do Big Brother, foi detido pela polícia no ano passado, acusado por um camionista de agressão selvática e persistente numa fila de trânsito.
A semana passada li que o Mário, o loiro burro do Big Brother, foi preso pela judiciária, acusado de liderar um gang responsável por assaltos à mão armada na zona do Porto.
A julgar pelos exemplos acima, os reality shows serão largamente responsáveis por toda uma geração de anormais desajustados e destrambelhados, com a mania das grandezas e do sucesso fácil. Não falo só dos anormais que por lá pululam, mas também dos anormais que diariamente enchem as audiências deste tipo de programas.
Parece-me óbvio que os reality shows dão cabo da vida pública dos seus participantes, que consequentemente passam a lidar muito mal com isso nas suas vidas privadas. Ora se assim é, porque não assumir as coisas frontalmente e criar programas que arrebentam com a vida dos gajos logo ali em directo, à vista de toda a gente, em vez dos abandonar à sua sorte no fim de cada programa? Seria infinitamente mais honesto do que acontece agora. E geraria muito mais audiência.
Foi a pensar nisto que elaborei algumas ideias passíveis de serem utilizadas pelo Piet Hein, free of charge, nos seus futuros lixos televisivos:

O Atol
Um grupo de labregos é colocado num atol de Mururoa. São formadas equipas de dois elementos e a cada indivíduo é dado um componente de uma bomba nuclear de potência desconhecida. Cada elemento da equipa é colocado num ponto do atol, bem distante do seu companheiro de equipa. O objectivo é encontrarem-se o mais rapidamente possível, juntando os componentes da bomba e accionando o dispositivo. Vence quem conseguir destruir o atol primeiro. Prémio de 100.000 euros para os primeiros, que será doado à TVI se os participantes não se apresentarem nos escritórios do Piet Hein duas horas depois de finalizada a prova.

A Tribo
Um grupo de quarentonas encalhadas é largado na selva ardente à mercê de uma tribo de somalis devidamente untadinhos e com a testosterona alterada quimicamente de modo a não pensarem noutra coisa que não seja a sodomia brutal e persistente.
Ao fim de três meses as quarentonas serão recolhidas e a vencedora será aquela que ostentar um caminhar mais esquisito.

A Catapulta
Um reality show com anões, cavalos pentapérnicos, e mulheres desnudas, que tem características próximas do triatlo olímpico.
Os anões são inicialmente catapultados para dentro de campos de minas, que terão que atravessar até chegar aos cavalos pentapérnicos. Os que sobreviverem à queda e às minas terão que cavalgar 20 km num campo de urtigas e espinhos, agarrados à quinta perna do cavalo. Os que conseguirem transpôr a segunda fase da prova serão de novo catapultados para o campo de minas. As mulheres desnudas na realidade não existem, e são apenas um motivo para dar cabo dos anões. O anão que sobreviver estará automaticamente apurado para «O Atol».

O Cartoon
Destinado a toda essa malta com talento para o desenho que anda por aí. Doze cartoonistas são fechados numa sala blindada com um fundamentalista islâmico que, embora ninguém saiba porque não se vê, está atestadinho de explosivos na zona rectal. Os cartoonistas têm que desenhar temas religiosos alusivos ao Ramadão. Quem conseguir fazer explodir o árabe ganha umas próteses biónicas (último modelo) para os bracinhos.

A Repartição
Reality show que simula o interior de uma repartição pública. A cada um dos quinze participantes é facultado: uma máquina de escrever Remington de 1916, trinta resmas de papel pautado, cinco resmas de papel químico, uma caixa de lexotans. Vence quem conseguir levar mais tempo a deferir um processo. O premiado será catapultado para o campo de minas dos anões. Os restantes irão servir de figurantes em «O Atol».


23 de fevereiro de 2006

A Razão em Massa

massas
Na minha opinião, aquilo que caracterizou o século passado foi sem dúvida a comunicação de massas. Fazer chegar a mensagem às massas desiquilibrou claramente a ordem natural das coisas estabelecida até então, e contribuiu para avanços sociais e económicos, no mínimo, consideráveis. Também contribuiu para que a merda se espalhasse mais depressa e de um modo mais contundente, mas isso é outra história.
O sucesso dos jornais, da rádio, da televisão e mais recentemente da internet e, dentro desta, o sucesso dos blogs, deve-se a esta progressão geométrica do fenómeno de comunicação de massas. A tal ponto que o fenómeno está banalizado: os jornais abrem falência, há muito que as rádios perderam a sua pujança, há em Portugal cerca de 500 canais de televisão, e no que toca à internet, qualquer labrego faz um blog e diz os disparates que lhe apetecer (na maior parte das vezes copia os disparates de outros).
É preciso então criar um novo paradigma para além da comunicação de massas. Não há pachorra para aturar as opiniões do fusili. Já se tornou insuportável ler as crónicas do tortelini. Os devaneios hipócritas do tagliateli são merecedores de uma tribo de somalis. As picardias infantis entre o fetuccini e o linguini já não têm o mínimo interesse (nunca tiveram, aliás). O rigatoni tem a mania que é poeta e só escreve merda. O penne é um rebarbado que só fala de sexo. O conchiglie gosta à brava de dar conselhos bacocos que nem ele próprio segue. O ravioli tem uma cultura musical vergonhosa e além disso cheira mal da boca. Pim. O capeletti saca diariamente daquelas piadas requentadas com cheiro a mofo, capazes de levar ao rubro um lar de velhotes a soro. O farfale com os seus problemas existenciais crónicos e maçadores. O tortiglioni a dar a entender que é gay, à pesca, a ver se lhe cai alguma coisa na rede. E até a massa crítica como o esparguete ou o macarrão já não tem nada de novo para dizer. A comunicação de massas é uma verdadeira seca sem interesse nenhum. Um deserto intelectual já que, como alguém dizia, as massas não pensam.

Sugiro um novo paradigma: a comunicação de sushis. Fresquinha todos os dias. Cheia de estilo. Bonita à brava. E indubitavelmente mais saudável que a comunicação de massas. Com pauzinhos e tudo.

22 de fevereiro de 2006

A Razão do Grilo Falante

grilo falante
Da série «histórias mal contadas» temos o Pinóquio: a história de um velho pedófilo de nome Gepeto que, numa altura em que ainda não existiam bonecos insufláveis com orifícios em pontos-chave, decide fazer um menino de pau para dar largas à sua perversão. Não vamos aqui discutir a matéria-prima escolhida pelo velho, podia ter escolhido silicone, esponja ou outro material, mas escolheu madeira e o gajo é que sabe, e isso agora não interessa nada.
Um belo dia, sem mais nem porquê, o menino de pau feito ganhou consciência. Desatou a falar que nem uma criança normal, e a fazer as barbaridades que as crianças normais fazem, com uma particularidade curiosa: sempre que dizia mentiras crescia-lhe o nariz. Até aqui não há nada de novo, tirando aquela referência semi-fálica do nariz, que também não interessa nada para este post.
O que realmente interessa aqui é a personagem que se torna amiga do menino de pau feito: um grilo. Um grilo falante capaz de enervar a criatura mais plácida. Um insecto que partia constantemente a cabeça do menino de pau feito, dizendo-lhe o que devia e o que não devia fazer. Uma espécie de Marques Mendes a chatear a bancada socialista por dá cá aquela palha. Todos nós temos este maldito grilo a chatear-nos diariamente. Mas há alguns de nós que dão uma utilização criativa ao grilo – é o caso de Ernesto Guevara que tinha um grilo que lhe dizia para ir dar uma volta pela América Latina; é o caso de Richard Branson, da Virgin, que há anos que tem um grilo a mandar-lhe dar uma volta ao mundo de balão; é o meu caso, que a dada altura tinha um grilo a mandar-me despejar num blog todos os disparates que me vêm diariamente à cabeça.

O que é importante reter aqui é que nem todos os grilos são de qualidade. Há grilos que são perfeitos anormais. Há grilos que não podem, nem devem, ser levados a sério. Mas na maior parte dos casos, os grilos dão-nos boas dicas. Há grilos verdadeiramente geniais. Ouçam o vosso grilo.