7 de abril de 2006

A Razão da Patinagem Artística

patinagem artistica
Há desportos que, pelas circunstâncias geográficas do país, Portugal não tem: Curling, por exemplo, uma actividade que faz furor no Canadá (esse país que adora portugueses) e que consiste em duas mulheres a dias a esfregar o chão à frente de um projéctil arremessado por um guarda nocturno; Saltos de Ski, onde eslavos de diferentes proveniências se atiram de peito feito para o infinito, voam um coche e aterram a fazer o «cristo-rei»; Bobsleigh e Toboganning, outros exemplos canadianos, onde tipos que falharam os testes de admissão para o «homem bala» no Circo Chen da terra deles, se atiram por pistas de gelo adentro em cima de trenós que mais parecem mísseis desgovernados; Lançamento de Anões, recentemente proíbido na Austrália e na Nova Zelândia, que consiste exactamente em atirar o seu próprio anão o mais longe possível; Hóquei no Gelo, um jogo que faz o hóquei em patins parecer um desporto gay-lésbico-simpatizante, e onde metade do tempo os jogadores andam à stickada às gengivas dos seus concorrentes.
Há de facto muito desporto que simplesmente não ganha simpatizantes por aqui. Principalmente aqueles que metem gelo e neve. Não é que Portugal não tenha gelo e neve. Temos a Serra da Estrela. O problema é que a Serra da Estrela nem sempre tem neve, e quando tem não há maneira de lá chegar, porque a estância de ski fecha por causa da neve.
Um daqueles desportos inexistentes que fazem mesmo falta por cá é a patinagem artística. É bonito de se ver, principalmente a modalidade feminina. Já repararam como as patinadoras são sempre giras, têm umas pernas fenomenais, e umas sainhas tão generosas que mostram ocasionalmente verdadeiros espectáculos de luz e côr? E quando elas patinam de costas e espetam o rabinho? É mesmo bonito de se ver.

Foi talvez a pensar nisso que o Governo se lembrou de colocar uns patins numa série de artistas da função pública. Daqui por uns tempos seremos o país da Europa com maior número de patinadores artísticos per capita. Não acredito que ombreiem esteticamente com os seus congéneres estrangeiros (há muito artista por aí sem perninhas para aquilo), mas sempre é um começo. Obrigado Sócrates.

6 de abril de 2006

A Razão do Alterne

alterne
Sempre me causou alguma curiosidade a expressão «alterne» para designar um determinado tipo de estabelecimento, pela simples razão de não perceber exactamente a que nos referimos quando dizemos alterne. É ao estabelecimento ele próprio? Um bar é de alterne porque é uma alternativa a um bar que não seja de alterne? Isto já explicaria muita coisa, pois quando nos fartássemos do nosso bar do costume íamos a um bar de alterne. Alternávamos, estão a ver? Mas não me parece que seja esta a explicação do nome.
Um amigo algarvio defende que talvez esteja relacionada com o tipo de bebidas que se servem nos estabelecimentos de alterne: qualquer frequentador deste tipo de estabelecimento é sedutoramente motivado a consumir variados tipos de bebida (com preferência para as bebidas brancas) bem como a pagar bebidas a donzelas de vida decididamente duvidosa. Faz parte do modus operandi da coisa. É daqui talvez que nasce a palavra alterne, uma vez que as donzelas, para não apanharem um pifo e se vomitarem todas durante a primeira hora de expediente, vão alternando as suas bebidas com água - dizem as entendidas que a técnica de alternanço consiste em 5% de bebida alcoólica para 95% de água. Aos frequentadores é incentivado o consumo puro, sem alternanço, sendo permitido que alternem com gelo, mas pouco. É bem provável que o alterne de água e gelo esteja na origem da designação, mas não me convence muito.
A explicação mais consistente, é-me dada por um amigo de Bragança. Explicou-me ele que a diferença de um bar para um bar de alterne são as gajas. «Num bar elas andam doidas pra dar» dizia-me ele «ao passo que num bar de alterne elas querem mesmo é receber». É óbvio que esta explicação me deixou exactamente na mesma, sem vislumbrar qual a relação disto tudo com a designação «alterne».
«Nenhuma.» respondeu-me ele desinteressadamente «Mas resume-se tudo às gaijas. Vais a um bar de alterne para arranjares uma alternativa à tua gaija, tás a ver? Alternas.»

Nada como a opinião abalizada de um especialista...

5 de abril de 2006

A Razão Escatológica


Já ninguém dá o cu e cinco tostões por nada neste país. Por razões várias: seja porque o sistema monetário mudou e já não existem os cinco tostões (e convenhamos que não é a mesma coisa dar o cu por cinco cêntimos – é enganadoramente caro), seja porque a maior parte da malta deste país já não tem cu. É verdade, já há muito pouca gente com cu para isto. Tirando o Sócrates, claro.

4 de abril de 2006

A Razão da Avó do Outro

avo do outro

A TAP fechou 2005 com um prejuízo de 10 milhões de euros. Fernando Pinto, o gestor maravilha, comentou a um jornal económico que «bastava que cada cliente tivesse pago mais 1,5 euros para não haver prejuízo». É curioso como o discurso dos gestores públicos revela inconscientemente aquilo que é o modus operandi do Estado e das suas empresas, que um dia tive oportunidade de falar aqui.
A filosofia do «cliente que pague os nossos prejuízos e a nossa ineficiência» veio mais uma vez à tona, sendo caso para dizer que, para a TAP dar um lucro de 10 milhões de euros em 2005, bastava que cada cliente TAP tivesse pago mais 3 euros. E assim sucessivamente. Desconfio que vou pagar muito mais que isso este ano, quando viajar na TAP...
Convém dizer que o prejuízo da TAP está directamente relacionado com o aumento do barril do petróleo em 2005, aumento esse que agravou os combustíveis em geral, e que não estava previsto no plano de negócios da empresa. É óbvio que Fernando Pinto e a sua equipa de gestão não é culpada disto. É uma variável dificil de calcular e com uma margem de erro considerável (normalmente para benefício da empresa).
Onde Fernando Pinto é culpado é no raciocínio de «se a minha avó tivesse rodas seria um camião». Principalmente quando a avó somos todos nós que voamos na TAP. É caso para perguntar: se a avó de Fernando Pinto tivesse asas seria um avião? Pelos vistos sim.

3 de abril de 2006

A Razão da Corda


Já pensaram no número de coisas que desaparecem fisicamente do nosso quotidiano sem que nos apercebamos? Coisas que tiveram um papel fundamental ao longo de gerações e que chegam a esta geração e perdem a sua utilidade universal, desaparecendo de fininho do nosso dia a dia, acabando por ter uma existência essencialmente linguística? Coisas que passam a existir no nosso dia a dia de uma forma abstracta porque ao longo dos séculos acabaram por fazer parte do nosso vocabulário, das nossas expressões, e que ganharam uma espécie de existência virtual para a maior parte de nós?
Desse rol de coisas que vão desaparecendo aos poucos das nossas vidas temos a corda. Já pensaram há quanto tempo não usam uma corda? Aposto que alguns de vocês nunca a usaram, pelo menos fisicamente. Nunca a usaram para aguentar as calças, à falta de cinto. Nunca a usaram para pendurar um gajo numa árvore mais próxima (método rápido de justiça em tempos passados). Talvez alguns de vós até tenham saltado à corda, mas a realidade é que a corda está em extinção – tirando algumas actividades (também elas em perigo de extinção) já ninguém liga nenhuma à corda. Foi implacavelmente substituída pelo cabo.
Mas no entanto a corda continua semanticamente a fazer parte do nosso dia a dia. Aposto que a usam todos os dias sem reparar: quando dão corda à ruiva na paragem do autocarro, quando vos esticam a corda lá no emprego, quando por algum motivo vos roem a corda, quando vos dão aquelas desculpas «presas por cordas», quando dão corda aos sapatos e bazam, ou mesmo naqueles dias em que vocês estão com a corda toda.

2 de abril de 2006

1 de abril de 2006

A Razão da Mentira

mentira

Qualquer estúpido pode dizer a verdade, é preciso ser-se inteligente para saber contar uma boa mentira.

Samuel Buttler