Yogi Berra
31 de outubro de 2005
30 de outubro de 2005
A Razão Evidente
Resposta: Eu nunca viveria para sempre, porque nós não devemos viver para sempre, porque se fosse suposto vivermos para sempre, viveríamos para sempre, mas nós não podemos viver para sempre, por isso eu nunca viverei para sempre.
29 de outubro de 2005
A Razão do Casaco de Peles
Pelo que sei as martas são criadas para depois serem transformadas em casacos de pele. Ora se não usássemos casacos de pele, aqueles animaizinhos nunca viriam a nascer. O que é melhor? Nunca chegar a nascer ou viver por um ano ou dois antes de se tornar num casaco de peles? Eu não sei.
28 de outubro de 2005
A Razão do Bufo
Não há raça de gente mais irritante, mais javarda, mais peçonhenta, e mais desprovida de um único pingo de decência, que os bufos. Esses filhos de um comboio cheio de meretrizes siflíticas, mal lavadas e a cheirar a bedum. Esses esbirros de gente que deixam um rasto de baba como lesmas nojentas. Esses estreptococos labregos que tresandam a merda num raio alargado de quilómetros.
Nascidos e criados nos 48 anos de ditadura os bufos viram a sua actividade ameaçada com a chegada da revolução e da liberdade de expressão. Mas foi uma preocupação de pouca dura porque o Estado português não levou muito tempo a institucionalizar os bufos e a torná-los parte do sistema, mesmo num regime democrático.
O Estado torna-se assim no grande criador de bufos do século XXI: um bufo que já não esconde o facto de ser bufo; um bufo que agora usa farda; um bufo que tem um escritório cheio de outros bufos; um bufo que como todos os outros labregos da disfunção pública, é pago por nós para bufar que nem uma mula com cio.
27 de outubro de 2005
A Razão do Envelope
Nos tempos da outra senhora estava toda a gente proibida de abrir o envelope. Dava direito a prisão e tudo. Não significa isto que eles permanecessem fechados, e que a malta acatava a proibição. Não. Os envelopes continuavam a abrir-se em segredo, à porta fechada, e embora houvesse zunzuns que fulano tinha aberto o envelope, não passavam disso mesmo. Zunzuns.
Depois houve a revolução e as coisas mudaram gradualmente. Aqui e ali foram-se abrindo uns envelopes, timidamente. Apesar da liberdade, a malta não estava ainda muito habituada a abrir o envelope assim abertamente, de chofre. E muita gente deixou o envelope por abrir. Ficou lá por casa, arrumado algures entre os livros, na vã tentativa de se esquecerem dele, para não caírem na tentação de o abrir. E o tempo foi passando.
O país, antes fechado em si próprio e desconhecedor do mundo à sua volta, começou a olhar para fora e a ver que lá fora já muita gente tinha aberto o envelope, e que apesar disso tinham uma vida normal. E aí começaram a perder a timidez e desataram a abrir o envelope como se não houvesse amanhã. De repente toda a gente tinha um amigo que abriu o envelope. Um vizinho que abriu o envelope. Um colega de trabalho que abriu o envelope. De repente abrir o envelope dava direito a desfile, com o envelope aberto bem alto, na mão. Abrir o envelope passou a ser um acto normal, até que um dia quiseram torná-lo moda e invadiram as televisões de programas com malta que acenava, histérica, o seu envelope aberto para toda gente ver. E desde esse dia abrir o envelope passou a ser uma caricatura. Consentida. Mas uma caricatura. E muito envelope continuou por abrir.
26 de outubro de 2005
A Razão de Algo
Sempre nutri um fascínio inexplicável por abstracções, por coisas tão latas que se tornam inatingíveis, daí o fascínio. E por isso divertem-me as palavras que apontam para esse vazio onde tudo pode caber. Algo é uma dessas palavras.
Reparem que existe sempre algo. Algo que despoleta algo. Algo que nos faz pensar em algo. Algo que nos impede de dizer ou fazer algo. Algo que nos diverte ou que nos chateia. Algo que, se deixarmos de fazer, acelera que aconteça algo. Ou nem por isso.
E na procura de algo que preencha algo que nos faça sentir algo, há sempre algo que nos vai transformando em algo: algo experientes, algo contentes, algo desencantados, algo intransigentes, algo recompensados, algo esclarecidos.
A beleza de algo é que é tão único e ao mesmo tempo tão diverso que nunca podemos considerar algo como certo, nem tão pouco achar que há sempre algo errado, embora os haja, os certos e os errados, os positivos e os negativos, os justos e os injustos, os deliciosos e os intragáveis.
Algo séria, esta Razão…