31 de janeiro de 2005

As Razões da Vida

life

Senhoras e Senhores,



Usem filtro solar. Se eu pudesse dar-vos apenas um conselho para o vosso futuro, seria este: usem filtro solar. Os benefícios a longo prazo do uso de filtro solar estão cientificamente provados. Os restantes conselhos que aqui darei baseiam-se exclusivamente na minha experiência pessoal. E aqui vão eles:

Desfrutem do poder e da beleza da vossa juventude. Ou melhor, esqueçam, porque só vão compreender o poder e a beleza da vossa juventude, quando estes já tiverem desaparecido. Mas acreditem numa coisa: daqui a vinte anos, vocês vão olhar para as vossas velhas fotografias e compreender, de uma maneira que não compreendem agora, quantas oportunidades tiveram, e o quão verdadeiramente maravilhosos vocês eram.

Atenção: vocês não são hoje tão gordos como imaginam ser.

Não se preocupem com o vosso futuro. Ou, se quiserem, preocupem-se sabendo de antemão que essa preocupação é tão eficaz como tentar resolver uma equação de álgebra enquanto se mastiga pastilha elástica. É quase certo que os problemas que realmente terão importância na vossa vida, serão aqueles que nunca vos passaram pela cabeça, do estilo daqueles problemas que vocês se lembram às 4 da tarde de uma qualquer terça-feira ociosa.

Façam, todos os dias, pelo menos uma coisa que vos assuste. Cantem. Não tratem os sentimentos alheios de uma forma irresponsável. Não tolerem quem trate os vossos sentimentos de forma irresponsável. Relaxem. Não percam tempo com a inveja. Algumas vezes vocês ganham, outras vezes vocês perdem. A corrida é longa, e no final só podem contar com vós próprios.

Lembrem-se bem dos elogios que recebem. Esqueçam os insultos (se conseguirem isto, expliquem-me como se faz).

Guardem as vossas velhas cartas de amor. Atirem fora os vossos velhos extractos bancários. Façam alongamentos. Não se sintam culpados se não souberem muito bem o que pretendem da vida. A maior parte das pessoas interessantes que conheço não tinham, aos 22 anos, nenhuma ideia do que fariam na vida. E algumas das pessoas interessantes de 40 anos que conheço, ainda não sabem.

Comam imensas coisas com cálcio. Sejam gentis com os vossos joelhos: vocês vão sentir falta quando eles deixarem de funcionar.

Talvez vocês se casem, talvez não; talvez tenham filhos, talvez não; talvez se divorciem aos 40, talvez dancem a conga quando fizerem 75 anos de casados. O que quer que façam, não se orgulhem nem se auto-critiquem demasiado. Todas as vossas escolhas têm 50% de hipóteses de dar certo, assim como as escolhas de toda a gente.

Curtam o vosso corpo da melhor maneira que puderem; não tenham medo dele, ou do que as outras pessoas pensem dele – o vosso corpo é o vosso maior instrumento. Dancem, mesmo que o único lugar que tenham para dançar seja a vossa sala de jantar.

Leiam todas as instruções, mesmo que não as sigam. Não leiam revistas de beleza: só vos fazem sentir feios.

Aprendam a conhecer os vossos pais – vocês não fazem ideia as saudades que vão ter quando eles já não estiverem cá. Sejam simpáticos com os vossos irmãos, eles são o vosso maior vínculo com o passado, e aqueles que, no futuro, provavelmente não vos vão deixar pendurados.

Entendam que as amizades chegam e partem, mas que há um punhado precioso delas, que vocês têm que guardar com carinho. Viajem. Aceitem certas verdades universais: os preços vão sempre subir; os políticos serão sempre desonestos; vocês também vão envelhecer. E quando vocês envelhecerem vão fantasiar que, quando eram jovens, os preços eram acessíveis; os políticos eram nobres de espírito; e as crianças respeitavam os mais velhos. Respeitem os mais velhos.

Não esperem apoio de ninguém. Talvez vocês venham a ter uma reforma choruda. Talvez casem com alguém rico. Mas nunca saberão quando um ou outro podem desaparecer.

Não estraguem muito o vosso cabelo, porque senão quando tiverem 40 vão parecer ter 85. Tenham cuidado com as pessoas que vos dão conselhos, mas sejam pacientes com elas. Conselhos são uma forma de nostalgia. Dar conselhos é uma forma de resgatar o passado que está numa lata de lixo, limpá-lo e esconder as partes feias, reciclando-o por um preço maior do que realmente ele vale.

Mas acreditem em mim quando vos falo do filtro solar.



Mary Schimich, publicado no Chicago Tribune, 1997

28 de janeiro de 2005

A Razão do Sentido de Humor

humor

Para assinalar o segundo mês de existência deste blog, vou escrever sobre uma característica notável da espécie humana que é a capacidade de se rir de si própria e daquilo que a rodeia. Chama-se sentido de humor, e é um dos placebos mais eficazes da nossa existência: está cientificamente provado que uma boa gargalhada diária aumenta a longevidade, alivia tensões e torna-nos, nem que seja por instantes, pessoas mais felizes. Existem vários tipos de humor, desde o mais básico ao mais requintado, mas o sentido de humor é algo transversal a todos os humores - quem o tem, esboçará pelo menos um leve sorriso quando confrontado com um dos vários géneros de humor. Infelizmente há por aí muito mamífero baboso desprovido de sentido de humor. Lamentavelmente para eles que, por mais que se esforcem, vêem tudo à luz da sua realidade e personalidade limitada e desinteressante, sem uma única pontinha de humor. Este post é dedicado a eles, a esses seres merecedores de uma tribo de somalis que lhes animassem o dia. Se algum de vocês está por aqui a ler isto, um conselho: vão dar sangue suas bestas! - pode não ter piada nenhuma mas ao menos estão contribuir para aumentar a longevidade de alguém.


27 de janeiro de 2005

A Razão dos Nomes

fish

Na sua origem, os nomes tinham um significado e eram atribuídos em função da sua carga significativa, acreditando-se então que esta carga se transportaria para a personalidade da pessoa que o ostentasse. Quem usasse o nome de Elisabete seria uma pessoa extremamente activa, persistente e com grande força de vontade, que alcançaria sempre os objectivos a que se propunha. Os Júlios (que em latim significa “cheios de juventude”) seriam inevitavelmente pessoas de memória prodigiosa, muito organizadas, com um dinamismo contagiante, e assim por diante.

Depois começou também a atribuir-se um nome que evocasse alguém bem sucedido numa área específica: a conquistar, a fundar, a descobrir, a desbastar, a emborcar inúmeros shots de vodka, etc.

Um dia, um casal de inconscientes olhou para a sua criança recém-nascida e procurou na sua cara um nome que lhe fizesse jus. Ao fim da vigésima terceira tentativa decidiram chamar-lhe José: o nome de um corno manso que achou que a sua mulher tinha emprenhado de um anjo. Mas o difícil foi mesmo o apelido: por mais que olhassem para a criança não lhes ocorria nada - a criatura tinha um olhar bovino e totalmente desprovido de inteligência. Então o pai lembrou-se daquele gajo que elaborava que nem um doido (e que nutria uma especial preferência por meninos), e deram-lhe o apelido de Sócrates. Podia ser que se safasse...

26 de janeiro de 2005

A Razão do Remedianço

remedianco

Se há uma característica predominante na cultura nacional, a par da inveja (ver Razão Feia, a Inveja), é o facto de sermos um povo remediado. Não confundir com desenrascado - desenrascar é arranjar uma solução que resolve perfeitamente um problema para o qual não estávamos apetrechados para resolver. Remediar é arranjar uma solução que sabemos ser precária para resolver um dado problema. Os portugueses falam muito na arte do desenrascanço, chamando a si a sua paternidade, mas na realidade os brasileiros é que são os desenrascados, nós somos apenas uns gajos remediados.

O remediado é um enrascado a tentar safar-se o melhor que puder, com a certeza inicial de que tudo o que consiga obter será sempre insatisfatório.

Na boa tradição nacional os portugueses preparam-se paulatinamente para remediar um governo para este país. O governo será formado por uns gajos remediados que tentarão, mais uma vez, remediar o país com a certeza que por mais que façam, o resultado final será sempre uma merda. Que se lixe, daqui a quatro anos cá estarão outros para remediar o que os próximos fizerem. Entretanto, vamo-nos remediando com o que temos.



25 de janeiro de 2005

A Razão do Professor

profe

Ao fim de tantas reformas de ensino ainda não perceberam que o que deviam reformar, perpétua e drasticamente, eram os professores. Está provado que na sua génese, o professor é aquele tipo de pessoa que não tem jeito nem talento para fazer coisa nenhuma, e que consequentemente decide passar o resto da vida a falar do que os outros fizeram. Enfim, um javardola pouco imaginativo. Senão vejamos: a sua capacidade de concentração atinge o limite ao fim de cada 50 minutos, findos os quais tem que ir a correr para um reduto (vulgo, sala dos professores) de forma a certificar-se que existem seres com o mesmo miserável destino e poder aguentar os próximos 50 minutos. Também não é por acaso que o professor representa a classe humana mais pavloviana que existe: só se mexe quando toca a sineta, e saliva que nem um animal (todos nós nos lembramos dos perdigotos que apanhávamos quando por azar ficávamos na carteira da frente). Depois é um ser que não aguenta os mesmos meses de actividade que outro qualquer trabalhador – embora diga que está atafulhado de reuniões, sabemos bem que, na realidade, está na taberna mais próxima a decidir o aproveitamento das suas vítimas entre copos entremeados de tinto e branco, conforme o seu estado de humor. E que dizer de um ser cuja função consiste em pegar num pedaço de giz que esfrega freneticamente numa ardósia negra e que tem como ponto alto mensal a reunião de pais? Nada, suponho. O facto de a maioria deles nunca saber onde vai ser colocado no país dá-lhes um modus vivendi cigano que se reflecte na maneira como instruem as suas vítimas: tudo é transitório (até a inteligência do próprio professor), e nada é dado como certo (nem a roupa interior que se vestiu no próprio dia). Outra coisa curiosa é que os professores nunca têm identidade própria: ou são prófes, ou setôres. Quais as implicações de tudo isto? Não faço a mínima ideia, agora uma coisa é certa: se porventura depararem com um blog feito por um professor façam apenas uma pergunta: oh professor, posso ir um bocadinho lá fora?


24 de janeiro de 2005

Razões Abstencionistas

abstenc

Li há dias num jornal diário nacional as primeiras projecções para as eleições de Fevereiro. Não pude deixar de reparar que estas apontavam para 42% de abstenção. Significa isto que, na altura de escolher os destinos políticos, económicos e sociais deste país, existe 42% da população que se está perfeitamente nas tintas. E depois queixem-se…

Estamos ainda na vigência do 25ºaniversário do 25 de Abril de 1974, altura em que meia dúzia de inspirados capitães se asseguraram que os mamíferos que assentavam arraiais neste país, pudessem escolher livremente os destinos da nação e não estar subjugados a um partido único, a uma única ideologia, a uma única vontade. Antes dos capitães, e durante 48 anos, centenas de portugueses morreram a lutar para que um dia o país pudesse, entre outras coisas, ter a liberdade de votar. E o que aconteceu 25 anos depois? Aparecem 42% de alimárias babosas que afirmam descaradamente que se vão abster.

Já tinha falado anteriormente sobre o quanto me exasperam os indecisos que pululam em qualquer sondagem realizada em território nacional (ver A Razão dos Indecisos), mas os abstencionistas provocam-me um asco indiscrítivel. Estes sacanóides abstencionistas são, na realidade, uns indecisos armados em finos. Não votam porque consideram que nenhuma das propostas políticas existentes contém os requisitos necessários para levar a bom porto este país:

- Porque o candidato A é um demagogo alucinado que muda de ideias, de mulheres, e de membros de governo em cada 15 minutos, não garantindo a estabilidade necessária para iniciar a recuperação do país.

- Porque o candidato B é um invertebrado sem uma única ideia, e de orientação sexual escumbalhada na imprensa estrangeira, que teve a sorte de estar à frente do seu partido quando o Governo andou a alucinar durante os 4 meses que o deixaram desgovernar.

- Porque o candidato C é uma prima dona efeminada e envolvida em escândalos de corrupção e outros, que faz das jogadas palacianas um modo de vida, qual senhorinha com cio à procura de alguém que a cubra.

- Porque o candidato D parece ter saído de um arquivo histórico da RTP, com um discurso que só não é ridículo porque chega a ser divertido como discurso de época.

- Porque o candidato E tem uma cartilha política inspirada no Animal Farm do Orwell, o que constitui um problema para a malta que vive na zona da Covilhã, que virá certamente a tornar-se o Gulag deste país, caso este candidato seja eleito.

Eu só tenho uma coisa a dizer às amibas abstencionistas: sejam quais forem as razões que os levam, confortavelmente, a não tomar qualquer posição política nas próximas eleições, lembrem-se que só têm essa opção porque algures na nossa história existiram gajos que sofreram e morreram para que vocês pudessem estar de cuzinho alapado a ver outros votarem. Portanto se querem demonstrar que não estão satisfeitos com nenhuma das hipóteses disponíveis, levantem o cuzinho, vão à mesa de voto, e votem em branco. O voto em branco significa que nenhum daqueles babacas é, na vossa opinião, uma solução para o país.

21 de janeiro de 2005

A Razão de Waldo

wally

Algures no início dos anos 90, Martin Handford inventou uma maneira de ganhar dinheiro a partir de uma personagem chamada Waldo. Com um ar de geek gay, gorro na cabeça, uns óculos redondos de massa e um pullover às riscas vermelhas, Waldo era um zé ninguém solitário que desaparecia facilmente na multidão. Era exactamente essa a função desta personagem: passar despercebido numa multidão de centenas de outras personagens em varíadissimos ambientes diferentes. Os livros da série «Onde está Waldo?», que levavam quem os lia ao desespero de nunca encontrar o maldito boneco com ar de tótó, venderam que nem ginjas para um dia seguirem o exemplo da personagem e desaparecerem de vez. O anonimato recorrente de Waldo foi substituído pela febre de celebridade, que consiste exactamente em estar bem visível e em todo o lado (assim tipo Cinha Jardim, que até consegue por vezes aparecer na minha cama - não sei como é que a gaja consegue fazer aquilo).

Tal como o Waldo nos seus tempos áureos houve uma série de personagens que desapareceram de fininho do nosso dia a dia, vítimas da mudança dos tempos. De tal modo que apetece perguntar:

- Onde está o José Cid?

- Onde estão as Doce?

- Onde estão os yuppies?

- Onde está a maioria absoluta do PSD?

- Onde está o Pedro Caldeira?

- Onde está a Madalena Iglésias?

- Onde está o Ramalho Eanes?

- Onde está o Mário Mata?

- Onde está Portugal?

- Onde está o Sr. Albano? (este desconfio que esteja a morar com aquela tribo de somalis que eu um dia lhe mandei)
Quem quiser saber onde está o Waldo pode sempre visitar este site e tentar, pela última vez, descobrir o gajo no meio da habitual multidão. Vão ter que se esforçar um bocadinho, mas vão acabar por encontrá-lo, incógnito, sózinho, e com a mesmíssima cara de estúpido. Boa caçada!