11 de dezembro de 2004

Razões Projectuais

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Todos sabemos que os portugueses são um povo pouco previdente. “Deixa para amanhã o que podes fazer hoje” é uma espécie de lema nacional que se estende a várias esferas da nossa sociedade (e a alguns cubos também, embora estes prefiram manter o anonimato). Até o nosso Presidente da República se rege por este princípio, como vimos ontem na sua sessão de esclarecimento.
No entanto, convivendo fraternalmente com este compulsivo adiar da realidade que nos torna um país cronicamente adiado, existe o “projecto”. Reparem que toda a gente tem “um projecto”. O projecto, na sua versão lusitana, é uma espécie de declaração de intenções daquilo que vamos fazer amanhã, porque hoje não estamos lá com grande pachorra para essa merda. Por isso em Portugal o projecto encontra o ecossistema perfeito para proliferar até à inconsciência. Está tão banalizado que já nem se chama projecto, é normalmente conhecido entre nós por “pejecto”.

A virtude do pejecto é podermos usá-lo como se fôssemos fazer alguma coisa com ele, e depois abandoná-lo por um qualquer motivo que nos apeteça: a razão de existência do pejecto é não passar disso mesmo, e portanto qualquer razão é boa para acabar com ele.

Os gajos que melhor desenvolveram a sua utilização, os verdadeiros virtuosos do pejecto, são os políticos. Os pejectos políticos proliferam por aí, cada um deles adiando o país à sua maneira. Mas na realidade toda a gente tem um pejecto: é vulgar eu ouvir a malta dizer que o pejecto deles é trabalharem para ganhar dinheiro suficiente para terem uma vidinha boa mais tarde – o chamado “pejecto de vida adiada” - vai ser triste vê-los aos 65, atascadinhos em Parkinson, sem saber porque raio se esfalfaram a trabalhar. Tenho um amigo cujo pejecto é tornar-se “cabeleireiro do baixo ventre” em Saint Tropez e ganhar a vida a fazer cortes artísticos nos pelos púbicos da população feminina da zona. Outro ainda tem o pejecto de ombrear com o John Holmes – já vai na quarta plástica, e está com o andar cada vez mais esquisito. Enfim... os pejectos são como as pilinhas, toda a gente tem um, e quem não tem está activamente a procurá-lo (evitem fazê-lo nas discotecas, a fraca luz e o vosso nível de alcoolémia pode induzir-vos em erro).

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