14 de outubro de 2006

A Razão Naturalista

naturalista
O homem, um animal, recebeu da natureza um cérebro imperfeito que lhe filtra umas poucas verdades metafísicas (a noção da morte, por exemplo) que o fazem totalmente infeliz. Enquanto isso os animais perfeitos – com um cérebro que lhes impede a consciência de qualquer sentimento não-animal – divertem-se à brava.


Millôr Fernandes

13 de outubro de 2006

A Razão de Pedro e o Lobo

pedro e o lobo
Da série «histórias mal contadas» temos hoje Pedro e o Lobo. A história de um rapazinho que gostava de dizer inverdades – um eufemismo político que significa que o rapaz era um miserável mentiroso, digno de uma tribo somali sem qualquer tipo de lubrificação afrodisíaca.
Conta a história que o rapaz, ostentando a função de apascentador de ovelhas na sua carteira profissional, manifestava uma fixação esquisita, de índole meramente sexual, no lobo que mantinha uma relação contra-natura com o capuchinho vermelho e sua avózinha. Pedro tinha, obviamente, problemas. Todas as suas tentativas de se inscrever no movimento gay lésbico bissexual e transgênero tinham sido indeferidas pelo facto da coisa não envolver animais. «Nem domésticos, nem selvagens» tinham-lhe sentenciado lá no posto de recrutamento do GLBT. Mas Pedro não se conformava com esta discriminação – se o movimento era tudo ao molhe e fé em Deus porque raio não incluiam animais?
Desesperado, Pedro passava os dias a arrastar-se pelos bosques, gritando «Lobo, lobo!» na vã esperança de que o animal lhe aparecesse à frente (ou atrás).
Mas o máximo que Pedro conseguiu foi enervar o pessoal lá da aldeia. Sempre que ele gritava «Lobo» a malta pegava nas gadanhas e vinha, desaustinada, defender as ovelhas. Ao fim de alguns dias de repetidos falsos alarmes a populaça perdeu a paciência e, mesmo sem recorrer a uma tribo somali devidamente untadinha, presenteou Pedro com um andar diferente. Pedro gostou. Desde aí perdeu completamente o interesse pelo lobo, mas não se coíbe de gritar por ele de vez em quando. Principalmente naqueles dias em que sente muito sozinho.

11 de outubro de 2006

A Razão de Provar Roupa

provar roupa
As mulheres encaram a roupa de uma forma completamente diferente. Noutro dia estava numa loja a ver as mulheres a admirarem a roupa e reparei que elas não a experimentam – põem-se por detrás dela. Tiram um vestido do cabide e põem-no à sua frente. E tiram uma conclusão qualquer. Esticam uma perna para a frente e inclinam-se ligeiramente para trás. Devem precisar de saber:«se um dia eu só tiver uma perna e tiver uma curvatura de quarenta e cinco graus, o que hei-de vestir?»
Nunca se vê um homem fazer aquilo. Nunca se vê um homem tirar um fato do cabide, pôr a cabeça por detrás da gola e perguntar: «O que é que acham deste fato? Acho que vou levá-lo. Ponha aí uns sapatos ao fundo das calças para eu ter a certeza. E se fôr a andar? Mexa aí os sapatos, mexa aí os sapatos.»

Jerry Seinfeld

10 de outubro de 2006

A Razão do Rei Satélite

«Quando o meu filho mais velho nasceu, no ano seguinte houve um aumento da natalidade do país.»

D. Duarte Pio em entrevista ao 24 Horas

De tempos a tempos, este jovem sente a compulsão de aparecer nos jornais e dizer umas coisas para a malta se aperceber que ele ainda existe. Infelizmente, raras são as vezes (se é que as houve) em que diz algo de relevante para aqueles que, na sua vertigem alucinada, considera serem os seus súbditos.
Desta vez estabelece uma correlação fundamental entre a sua vida sexual e a dos portugueses, acreditando piamente (ou não se chame ele Pio) que as suas acções despoletam irreversíveis macro tendências na nação portuguesa. Uma vez que ainda ninguém lhe explicou as virtudes ergonómicas de uma guilhotina, resta-nos aproveitar a sua mitomania e colocá-la ao serviço do país, contribuíndo para as profundas transformações estruturais que o desgoverno de Sócrates já mostrou ser incapaz de resolver:

Se Duarte Pio começar a trabalhar ainda este ano, em 2007 acabará o desemprego em Portugal. Sugiro que alguém ofereça uma enxada ao homem porque o sector do primário deste país está a desaparecer.

Se Duarte Pio preencher a sua declaração de impostos até ao final deste mês teremos resolvido em Janeiro próximo o problemas das dívidas ao fisco com milhares de portugueses a entupir, em histeria monárquica, todas as repartições de finanças do país, pagando tudo o que tinham para pagar.

Se Duarte Pio não ficar doente na próxima década terá resolvido por várias gerações o problema da saúde em Portugal.

Se Duarte Pio continuar a andar a cavalo estará a contribuir para que, dentro de cinco anos, Portugal reduza em 70% as suas emissões de carbono para atmosfera e veja o seu parque automóvel reduzido a 1.500 unidades (os carros dos membros do governo e seus respectivos secretários). O Estado deixará de empochar o imposto automóvel, mas que se lixe: seremos o país mais ecológico do planeta a seguir ao Ghana.

Se Duarte Pio deixar de dizer barbaridades aos jornais, dentro de um ano deixaremos de ter imprensa escrita e os jornalistas passarão a dedicar-se a profissões mais edificantes, como a pesca do bacalhau nos mares do norte, por exemplo.

Os franceses tinham o Rei Sol. Nós temos o Rei Satélite. Estamos claramente mais bem servidos que esse povinho que fala com a boca em «U».

9 de outubro de 2006

A Razão Casapiómana

casapiómana


Frederico Pedrosa, perito do Instituto de Medicina Legal, negou que as manchas do pénis de Carlos Cruz possam, em erecção, chegar ao tamanho de uma moeda de um cêntimo, como disse uma das vítimas.

in Revista Sábado, 4.Out.2006

Fui surpreendido por esta pequena notícia no fim de semana. Aparentemente há uma criatura no IML que andou a medir manchas no pénis erecto de Carlos Cruz. Estão a ver como há trabalhos muito mais miseráveis que o vosso? Naqueles dias que estiverem fartos do vosso patrão lembrem-se que poderiam estar a medir manchas em pilas num sítio qualquer.
O lado interessante desta notícia não é a peritagem do Frederico Pedrosa mas sim o que esta sugere: aparentemente houve uma vítima de pedofilia que afirmou que o Carlos Cruz tinha manchas no pénis e que estas tinham «o diâmetro de uma moeda de um cêntimo». Vem-se agora a provar que a vítima não tinha razão nenhuma, o que provavelmente vai conduzir à impugnação do seu testemunho por falta de prova. Não interessa nada que Carlos Cruz tenha manchas no pénis – algo que é tão vulgar como ter impresso no pénis a última tentativa de romance de Margarida Rebelo Pinto. O que interessa é que a dimensão das manchas não corresponde milimetricamente à verdade. Aliás, se as manchas tivessem o diâmetro de moedas de dois euros a vítima estaria lixada na mesma porque, no fim do dia, o processo Casa Pia terminará, à conta destes pequenos expedientes de pacotilha, sem vítimas nem acusados, provando uma vez mais a ineficácia e o engajamento do sistema de justiça português.
Casapiano e casapiómano significarão, no fim desta fantochada digna da nossa telenovela mexicana, exactamente a mesma coisa. Para mal dos primeiros.

8 de outubro de 2006

A Razão da Obra Precária

obra precária
Jesus foi só mais um carpinteiro que prometeu voltar noutro dia para terminar o serviço.

Zé Rodrix

7 de outubro de 2006

A Razão da (boa) Proporção

proporções
Existem três mil milhões de mulheres no mundo. Apenas oito são top models.

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