28 de fevereiro de 2005

A Razão dos Óscares

oscars

Procurando premiar os artistas que se destacaram nesta nossa telenovela mexicana chamada Portugal, eis os Óscares da Razão:

Melhor Argumentista – Jorge Sampaio
Escreveu o melhor enredo novelesco do último ano, conseguindo enganar todos sobre as suas reais intenções, até os debilóides membros do seu miserável partido.

Melhor Realizador – Durão Barroso
Realizou o melhor film noir que a direita portuguesa alguma vez conheceu desde 1974. Recém-chegado a Bruxelas, quis criar uma sequela europeia da coisa, mas foi travado a tempo pelos Estúdios da Comunidade Europeia. Ainda assim tem um papel de destaque a nível nacional.

Melhor Actor Principal – Carlos Cruz
É impressionante como conseguiu manter a pose e um discurso coerente de inocência quando já toda a gente percebeu que está a actuar (e bem!). Podes parar meu, toma lá o Óscar.

Melhor Actor Secundário – José Castel Branco
Prisioneiro da sua própria caricatura, criou um personagem tão aberrante que tornou Quinta das Nulidades um freak show ao nível dos nossos amigos americanos.

Melhor Actriz Principal – Ana Afonso
Ninguém esquecerá o papel de púdica inocente que desempenhou no mais famoso freak show nacional. Naturalmente que teve uma ajuda da equipa de produção do programa, que cortou as partes onde esta abocanhava generosamente partes íntimas de outro concorrente. Depois do programa acabar, percebeu-se o quão boa actriz (e atrás) tinha sido.

Melhor Actriz Secundária – Manuela Moura Guedes
Ganhou este galardão com a sua performance na noite eleitoral interpretando, aos pulinhos, o papel de uma galdéria excitada, com pretensões intelectuais.

Melhor Banda Sonora Original – Hino de Campanha de Santana Lopes
O menino guerreiro, coitadinho e chorão, arrasou por terra o concorrente mais directo e já premiado em Hollywood, o “Gladiador”.

Melhores Efeitos Especiais – Operação Nariz Vermelho
Estão ainda por descobrir os comediantes que colaram narizes vermelhos nos cartazes de alguns dirigentes políticos em campanha, embora tudo aponte para que tivesse sido uma tribo somalis chefiada por Jerónimo de Sousa.

Melhor Filme de Animação – O Desgoverno Constitucional de Santana Lopes
Apesar de ter sido uma curta metragem, foi uma animação do caraças! Durante 4 meses o país mais pareceu uma cambada de looney tunes desatinados e desgovernados.

Prémio de Carreira – Pinto da Costa
Apesar de tudo e mais um par de botas, o homem continua lá firme e hirto que nem uma barra de ferro, sem um pinguinho de ferrugem.

A Razão congratula todos os premiados e informa todos os candidatos que para o ano há mais. Bem hajam!

27 de fevereiro de 2005

Razões Injustas

metades
Metade do mundo é formada por pessoas que têm alguma coisa para dizer e não podem, e a outra metade por pessoas que não têm nada para dizer, mas podem.

Robert Frost

26 de fevereiro de 2005

Razões de Fé

deus

- Que me importam a mim os vossos campos! Que me importam os vossos animais e os vossos filhos! – berrou o padre – Viveis, todos vós, uma vida material e sórdida. Ignorais o que seja o luxo!... Esse luxo, ofereço-vo-lo eu: ofereço-vos Deus... Mas Deus não gosta da chuva... Deus não gosta do sanfeno. Deus não quer saber do vosso chão, nem das vossas chãs aventuras. Deus, é uma almofada de brocado de oiro, é um diamante engastado no sol, é as sotainas de seda, é as peúgas bordadas, os colares e os anéis, o inútil, o maravilhoso, as custódias eléctricas... Não, não choverá!

- Queremos chuva – berrou o camponês, desta vez sustentado pela multidão, que desatou a trovejar como um céu tempestuoso.

- Voltem para as vossas quintas! – mugiu a múltipla voz do padre. – Voltem para as vossas quintas! Deus é a volúpia do supérfluo. E vós só pensais no necessário. Sois indivíduos perdidos, a Seus olhos.
E continuou – Não há-de chover! Deus não é um ser utilitário. Deus é um presente festivo, um dom gratuito, uma barra de platina, uma imagem artística, uma guloseima requintada. Deus está a mais. Deus não é a favor, nem contra. Deus é um extra! Deus é um luxo!

Boris Vian, in “O Arranca Corações”, 1953

25 de fevereiro de 2005

A Razão dos Agricultores

agricultura
Ao contrário do que se possa pensar, a profissão com mais futuro, principalmente em Portugal, é a agricultura. Num país onde a produtividade atinge valores abaixo do nível das águas, os agricultores são os detentores do maior segredo nacional: como ganhar dinheiro fazendo o menos possível, ou mesmo fazendo nenhum. E aparentemente guardam-no bem, uma vez que ninguém, além deles, parece interessado em investir na agricultura.
Que outra profissão exige subsídios do Estado seja porque chove seja porque não chove, seja porque faz frio seja porque faz calor, seja porque produziu a mais seja porque produziu a menos? Que outra profissão é subsidiada para não produzir, ou para produzir menos? Qualquer que seja a razão, quando se fala de agricultura há sempre um bom subsídio para ela.
Os agricultores nacionais são os verdadeiros estandartes do modo de vida nacional: está sempre tudo mal e em crise, nunca há dinheiro para nada, a culpa é sempre do Estado, e venha para cá o “meu” porque não me apetece trabalhar. Tudo isto embrulhado com requintadas acções de marketing onde se bloqueiam estradas, fazem manifestações, e destroem colheitas, sempre com câmaras de televisão à frente. Verdadeiros mestres do engano, e pedinchões à espera de serem desparasitados, estes agricultores tugas.

24 de fevereiro de 2005

A Razão da Prevenção Rodoviária

prp
Sempre que viajo até ao Algarve ou Alentejo não consigo deixar de reparar num cartaz publicitário da Prevenção Rodoviária Portuguesa, e no sentido obscuro que este encerra. Este cartaz faz parte de uma conspiração estatal para solucionar o problema da segurança social portuguesa. É certo que quem olhe distraidamente para ele verá apenas um simples cartaz, destinado a sensibilizar os automobilistas lusitanos; mas uma segunda leitura, com uma ajudinha semiótica, revela-nos algo verdadeiramente tenebroso: a conspiração do Estado.
O cartaz é muito simples numa perspectiva iconográfica: tem um fundo amarelo, e mostra um desenho a preto, de um automóvel a atropelar violentamente um peão, que é cuspido pelo ar, a rodopiar. Até aqui tudo bem, se não fosse assinado pela frase «É melhor parar por aqui»!
Quer isto dizer que qualquer um de nós pode atropelar um peão, desde de que nos fiquemos por ali. Atropelar um gajo está bem, mas o melhor é não nos excitarmos muito e atropelar mais outro, porque nesse caso já não temos o aval da PRP.
Conseguem perceber o verdadeiro alcance deste incentivo? Qual a sua ligação com as políticas de reforma do sistema de segurança social? Passo a explicar: Em Portugal circulam cerca de cinco milhões e meio de veículos motorizados. O país tem dez milhões de habitantes. A maioria dos condutores de veículos motorizados pertence à população activa. Se os condutores seguirem o conselho da PRP e atropelarem violentamente não mais do que um peão, a população nacional passará para metade num ápice. Et voilá, sistema reformado. Estes gajos do Estado são maquiavélicos à brava!

23 de fevereiro de 2005

Razões Genéticas

genetix
Num recente jogo de futebol num estádio português, um homem estava particularmente enervado com a arbitragem. Demonstrava o seu desagrado correndo aos berros pelo corredor da bancada abaixo, até chegar ao corrimão, largava duas ou três bujardas ao fiscal de linha, e voltava para o seu lugar. Parecia um matraquilho daqueles que andavam para cá e para lá, naqueles jogos eléctricos que não tiveram futuro nenhum contra os nossos tradicionais e manuais matraquilhos com jogadores atravessados sadicamente ao meio por uma barra de metal.
Numa destas idas e vindas o homem desequilibrou-se ao pisar no seu próprio cachecol, galgou o corrimão, e caiu da bancada abaixo morrendo de imediato. Sem saber, este homem tornou-se num sério candidato ao Darwin Award, ombreando com todas as alimárias que são responsáveis pela sua própria morte estúpida. Criados em meados dos anos 90, os Darwin Awards premeiam todos os estúpidos que contribuem para melhorar o património genético da espécie humana retirando os seus genes da cadeia de evolução, ou seja, morrendo involuntariamente pelas suas próprias mãos. Embora já tenha sido editado em livro, com algumas das melhores e hilariantes mortes por autoestupidez, o site Darwin Awards ainda é a melhor fonte para quem se quiser candidatar ou manter actualizado sobre os últimos concorrentes ao prémio. Para quem pensa que a estupidez humana é finita, recomendo uma visita a esta pérola de humor negro baseada em factos reais.

22 de fevereiro de 2005

Razões Socráticas

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Os acontecimentos dos últimos dias fizeram-me perder a Razão. Não era nada que não estivesse à espera, confesso. Mas olhar para a coisa em directo fez-me levar um choque de realidade que me deixou sem vontade de escrever fosse o que fosse durante 48 horas. Uma espécie de letargia atávica só semelhante a um qualquer professor. Esta espécie de aparvalhamento docente atingiu o seu pico nas declarações de vitória do líder dos socráticos. Bem sei que homem não foi eleito por mérito próprio, bem sei que foi o demérito dos candidatos concorrentes que o levou, numa espécie de Disneylândia bacoca, à maioria absurdamente absoluta. Mas o gajo podia ao menos ter-se esforçado para disfarçar o vácuo existente entre as suas orelhas. O que ouvi foi uma série de bárbaras banalidades que o tipo levava escritas numa folha de papel (nem quero imaginar quando ele tiver que improvisar). Seria de esperar que ao menos alguém lhe escrevesse uma coisita minimamente razoável para um discurso de vitória histórica. Mas quis a história, e o parco QI do indivíduo de olhar bovino, que os 2,5 milhões e meio de desesperados votantes ouvissem um dos discursos mais pobres e vazios da história política portuguesa. “Ganhámos. Tivemos a maioria absoluta. Por isso ganhámos. Conseguimos. Mostramos ser possível. Vou governar com pessoas competentes. Não sei quem são, mas serão competentes”, e assim por diante, num chorrilho de banalidades embrutecidas, que só não são embrutecedoras porque ainda agora começou, e é como já se tivesse visto o filme todo. Um povo que elege absolutamente um manequim foleiro da Rua dos Fanqueiros merece tudo o que lhe possa vir a acontecer. Com toda a Razão!