11 de abril de 2005

A Razão da Improdutividade

produtividade

De tempos a tempos Portugal aparece mencionado numa daquelas estatísticas da comunidade europeia que comparam os índices de produtividade dos Estados Membros. Inevitavelmente ocupamos um lugar cimeiro no pelotão dos mais improdutivos. O que torna os portugueses o povo mais improdutivo da Europa? Será a nossa proximidade do Norte de África? (provavelmente seríamos os mais produtivos do Norte de África!) Será por sermos arraçados de árabes? Ou apenas porque somos uns madraços incorrigíveis?
Eu tenho uma perspectiva bastante clara sobre este défice nacional de produtividade: o problema reside no empresário português, esse mamífero que consiste num enxerto de comerciante de feira com um MBA no levantamento do copo. Por mais esforçado que seja, o trabalhador português não consegue contrariar a chusma de disparates cometidos pelo empresário tuga que lhe paga (até ver) o ordenado. E o que torna o empresário português uma verdadeira pérola da gestão de mercearia? Eis algumas características fundamentais:

O empresário tuga não tem empregados, tem filhos. Os seus colaboradores são tratados como a sua prole – com berraria, chapadas, castigos, e chorudas recompensas. Exige-se portanto um respeitinho que é muito bonito, porque senão dá-se-lhes um par de galhetas e não se facilita aquele chequezinho não declarado no fim do mês.

O tuga empresário não tem objectivos estratégicos mais profundos do que um copo de tintol meio cheio. Parafraseando um empresário tuga que tive o prazer de ouvir uma vez: “a estratégia é não ter estratégia!” (deviam ver a cara de anormal que ele colocou a dizer isto, a esforçar um ar de intelijumência).

Para o tuga empresário os objectivos são metas que escarrapacham aos olhos de toda a gente o quão incompetente ele é na gestão do seu negócio. Portanto é melhor que não se fale muito nisso. Para qualquer empresário tuga o objectivo é ganhar o mais possível, pagar o menos possível, fazendo o menos aconselhável.

O empresário tuga nunca tem lucro. Tem sempre um prejuízo do caraças, nem que para isso que tenha fazer umas lavagenzitas por uns países africanos de nomes impronunciáveis. Ter lucro significa ter que dar dinheiro ao Estado, e isso é considerado contra-natura. “Prefiro cagar um pé todo até ao pescoço” é normalmente a sua postura oficial quanto a esta questão.

O escritório do empresário tuga é a mesa do restaurante por volta das 17:00h, depois dos aperitivos, do petisco, do prato principal regado com um bom tinto, do segundo prato principal acompanhado com outro tinto, do terceiro prato principal com vinho a condizer, das diferentes sobremesas, e de alguns penalties de buísque ou de vagaceira, do charuto da República Dominicana, e de sete cafés. Completamente atafulhado de comida e com uma taxa de alcoolémia que embebeda qualquer ser vivo num perímetro de duzentos metros, o tuga discute negócios nos 10 minutos que antecedem a sua saída ziguezagueante do tasco.

O tuga empresário é fisicamente diminuído: gordo que nem um porco, com a barriga a resvalar-lhe para os joelhos e a suster uma gravata que parece uma rampa de lançamento das suas aleivosias abrutalhadas. Não pratica qualquer tipo de desporto. O colesterol entope-lhe as “beias caragu”. E está permanentemente sujeito a um enfarte que faça surgir o seu sucessor natural: o seu filho retardado, ou outro javardolas aciganado e sem a mínima noção do que é um P&L.

O tuga empresário confunde política de incentivos com entradas-livre no bar de alterne mais próximo. Motivação para ele significa montar um apartamento à São, a sua secretária.

Portanto quando voltarem a ouvir falar da pouca produtividade deste país, não levem a mal os trabalhadores portugueses. Esses coitados não têm culpa dos exemplos que vêm de cima.

8 de abril de 2005

A Razão da Idade (2ªParte)

mao

Reparo romanticamente que cada um de nós transporta na sua mão todas as idades humanas descritas no post anterior. Olhem para os dedos da vossa mão direita (olhem para a mão esquerda se forem canhotos):
O polegar representa a Idade da Mama. É normal ver a malta agarrada a ele, a chuchar.
O indicador, o nosso dedo mais inquisitivo, representa a Idade da Avaria. É ele que escolhemos para pressionar tudo e todos que se atravessam à nossa frente, provocando avarias várias ao longo da nossa vida.
O médio representa a Idade da Hormona Desenfreada. Penso que escuso de referir qual a razão. É evidente q.b.
O anelar, o dedo do compromisso, representa a Idade da Ilusão. Todos os compromissos, como teremos um dia a oportunidade de constatar, são pura ilusão.

E finalmente o mindinho, o mais frágil dos dedos, representa a Idade do Rododendro Equivocado. Não é um dedo particularmente útil nem activo, mas faz imensa falta.

7 de abril de 2005

A Razão da Idade (1ªParte)

idades

Se há um termo que me deixa perplexo é a “terceira idade”. Principalmente porque nunca ouvi qualquer referência à “primeira” nem à “segunda” idades. Como é que se processa esta ordenação? Isto cheira-me a coisa de sociólogos: são muito desenvoltos na estatística mas baralham-se com qualquer número que não tenha uma percentagem.
A outra questão que me coloco é se haverá uma “quarta idade”? Ou pelo menos se haverá tempo para isso? Duvido. Ninguém tem grande pachorra depois dos 80 anos. Isto de se numerarem as idades omitindo umas, e morbidamente destacando uma delas não me parece um bom método de classificação da longevidade humana.
E depois há aquela designação que é a “Idade de Ouro”, um sinónimo da “terceira idade”. E mais uma vez não há alusões a idades anteriores à do “ouro”. Ao menos os paleontólogos foram mais explícitos quando atribuíram metais aos vários estágios da evolução humana nos seus primórdios…
Uma vez que não está encontrada nenhuma razão plausível para a “terceira idade” ou para a “idade do ouro”, sugiro que se faça uma classificação decente do fenómeno do envelhecimento humano. Assim sendo, vamos considerar a exsitência de cinco idades:

A Idade da Mama
Inicia-se no nascimento e conclui-se no momento em que deixamos de mamar e passamos a apreciar coisas sólidas e mastigáveis. Há malta que nunca abandona esta idade e vai querer mama até ao fim dos seus dias: são os mamões, esses ordinarecos chupistas.

A Idade da Avaria
É uma fase de pura descoberta onde tentamos perceber a razão das coisas. É normal que nesta fase tenhamos que substituír vários electrodomésticos lá em casa, vítimas de dissecação e estropiamento mais ou menos violento.
Há malta que nunca abandonará esta idade e continuará em plena avaria até ao fim dos seus dias. Refiro-me obviamente aos políticos e à malta que ocupa cargos públicos.

A Idade da Hormona Desenfreada
Nesta fase descobrimos a nossa sexualidade e a de mais umas boas dezenas de pesssoas. Os casos mais extremos até descobrem a sexualidade de alguns animais. Uma verdadeira porcaria. Também aqui há uns quantos que nunca vão abandonar esta idade. O espécime mais paradigmático desta idade é o Zézé Camarinha.

A Idade da Ilusão
Esta é a idade mais longa. Aqui vamos querer provar a nós próprios e aos outros que temos uma qualquer habilidade: social, pessoal ou profissional. Alguns conseguem-no provar na sua totalidade. Outros não. Nesta idade a ideia de felicidade começa a tornar-se obsessiva, ao ponto de se esgotarem todos os cartuchos a tentar atingi-la. Eventualmente alguns irão entender que felicidade é um estado transitório que não augura nada de bom. Mas a maioria ficará na santa e salutar ignorância, a caminhar para um horizonte que se afasta à medida que nos vamos aproximando. A busca por esta linha do horizonte vai fazer com que uma grande maioria de nós passe por esta idade sem tirar verdadeiro partido dela. Azarito.

A Idade do Rododendro Equivocado
Chegamos então à idade mais lixada, por ser a última. Depois dela deixamos de ser convidados para a maioria das festas de aniversário. Os nossos interesses simplificam-se substancialmente nesta idade. Já ficamos satisfeitos se os nossos intestinos funcionarem uma vez por semana, e se a escoliose nos permitir tratar do rododendro (se bem que nos esqueçamos frequentemente do nome do raio da planta que diária e religiosamente regamos para matar o tempo antes que ele nos mate a nós).

6 de abril de 2005

A Razão dos Farmacêuticos

farmaceuticos
Os italianos têm a Camorra; os japoneses têm a Yakuza; os russos tem as suas Máfias; os chineses, as suas Tríades; os espanhóis, a Opus Dei; e os portugueses têm os farmacêuticos, esses balconistas que lidam com drogas e que controlam a saúde em Portugal. Qualquer negócio que consista na venda de drogas e consiga parecer legítima só pode ser gerida por seres perversamente inteligentes. Os farmacêuticos nacionais decidem quem pode entrar no negócio, quem pode expandir o negócio, quais os laboratórios que terão um bom ano de negócios, que médicos farão uma viagem de “trabalho” ao próximo paraíso tropical, e que saúde terão os portugueses este ano, com ou sem genéricos. Tudo isto sem um resquício de concorrência, e com o aval do Estado. Perto deles a Opus Dei é uma brincadeira de meninos endinheirados com uma estranha fixação em peúgas roxas.
Quantos escândalos envolvendo médicos são conhecidos? Alguns, porque a Ordem é forte. Quantos escândalos se conhecem envolvendo laboratórios? Muitos, mas mesmo muitos, porque a desordem é grande. E quantos escândalos se conhecem envolvendo farmacêuticos? Nenhum. Não é estranho?
Eu tenho uma teoria quanto a esta coisa dos escândalos: quando há dinheiro para todos é altamente improvável que surjam escândalos. Há uns tempos escrevi que a profissão com mais futuro em Portugal era a Agricultura, pois bem, a profissão com mais presente é a farmacêutica. Literalmente.

5 de abril de 2005

A Razão da Tentativa e Erro

tenta&erra
Alentejo. Ano de 1728. Não consigo precisar com exactidão a localidade. O homem tinha à sua frente uma selha de febras de porco e dois valentes pães caseiros que tivera o cuidado prévio de fatiar. Olhava concentrado as febras e o pão há já algum tempo. Pegou em duas febras e colocou-as em cima da mesa, à sua frente. De seguida alcançou três fatias de pão que dispôs cuidadosamente em cima das febras, alinhando uma fatia a seguir à outra. Pensou num nome para aquilo. Arrifana pareceu-lhe bem. Com um ar satisfeito agarrou na arrifana e abocanhou-a generosamente. As febras sujaram-lhe os polegares e encheram-lhe o colo de gordura. Aquilo não podia ser.
Voltou a olhar, concentrado, e recomeçou. Desta vez colocou em cima da mesa uma febra, por cima desta acrescentou uma fatia de pão, e rematou com outra febra, cirurgicamente colocada por cima do pão. A coisa parecia que ia funcionar. Decidiu chamar aquilo de trifana. Bonito nome, pensou. Pegou na trifana e levou-a à boca, mastigando-a entusiasticamente. As duas febras que entalavam a fatia de pão deixaram-lhe as mãos completamente cobertas de gordura. Decididamente também não era aquilo.
Voltou ao início: pegou numa fatia de pão e colocou-a em cima da mesa, depois pegou numa febra e colocou-a rapidamente em cima do pão, cobrindo-a de seguida com uma segunda fatia de pão. Pegou naquilo e voltou a comer. Desta vez nem um pingo de gordura nas suas mãos. Era mesmo aquilo: tinha inventado a roulotte!!

4 de abril de 2005

A Razão do Destino

destino
A todos os que não consegui enganar, resta-me elogiar-vos a sagacidade e agradecer-vos a persistência. A Razão continua, é o seu destino.

O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma prostituta, ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que o destino não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.

Carlos Ruiz Záfon

1 de abril de 2005

Razão Final

The End
Há uns tempos li não sei onde que a duração média de vida de um blog é de quatro meses. Na altura tinha acabado de criar a Razão e achei que ia postar até ao infinito. Não ia ser apanhado por uma estatística, de certezinha absoluta! E então a coisa começou a acontecer: comecei a sentir uma compulsão danada por “postar”, apetecia-me postar em todo o lado e ficava furioso quando não o conseguia fazer. Violento até. Quando não conseguia postar ia para as ruelas da Cova da Moura para andar à porrada. Era a única coisa que me aliviava a tensão de não poder postar quando me apetecia. Ainda fui parar à choldra umas boas vezes, e acabei por levar com tubos na cabeça, mas era algo que eu estava disposto a aguentar. Depois a malta começou a sair lá de casa. Primeiro a empregada, que se despediu alegando que eu passava o dia a gritar com o computador. Depois a minha irmã, que arranjou a desculpa que se ia casar e bazou, não sem antes me ter dito que só casava mais cedo para sair dali rapidamente porque já não tinha pachorra para me aturar. No mês passado foram os meus pais, depois de eu ter enfiado a cabeça do meu pai na pia mais próxima durante uma discussão sobre a Razão da Mediocridade. Decidiram ir viver para Espanha, os javardolas, como se alguém pudesse ir viver para aquele país de lolitas e cornudos! Finalmente a minha namorada, a semana passada, decidiu que eu me estava a tornar maníaco-depressivo, e que para isso já lhe bastavam os seus pacientes do estágio no Júlio de Matos. Bazou (com a minha colecção de CD’s). A coisa começou mesmo a raiar o absurdo quando os meus amigos deixaram de aparecer, de telefonar, ou de me convidar para sair. Olhei para o calendário e percebi tudo. Estava a atingir os 4 meses de blog, numa casa vazia, decorada de roupa pendurada por todo o lado, caixas com pizzas que já tinham vida própria, e latas de cervejas vazias. Compreendi então a razão daquela estatística estúpida: o blog é um tirano que toma conta da nossa vida ao ponto de já não termos vida, ou pelo menos de nos assemelharmos a amibas despreocupadas com o ecossistema. Por isso mesmo escrevo hoje, 4 meses e 2 dias depois de ter postado pela primeira vez, a minha última Razão. Já contrariei a estatística por 48 horas e agora vou arranjar uma vida. Bem hajam!